Talk to pass

Estou de volta com a minha coluna no site SPORT MOTOR para falar sobre a polêmica envolvendo os dois pilotos da Ferrari no GP da Alemanha.

Você pode até perguntar por que esperei tanto tempo pra emitir minha opinião a esse respeito e eu respondo que resolvi esperar e analisar melhor fatos e conseqüências porque, para atacar existem muitos, mas para realmente tentar entender o que aconteceu, poucos e às vezes é melhor esperar a chuva cair pra depois se enxugar.

Quero, antes de mais nada, deixar claro que não tenho procuração nem qualquer tipo de relação pessoal ou comercial com o Felipe Massa para defender ou atacar sua decisão, somos amigos cordiais desde o tempo que trabalhei na Rede Globo onde ambos respeitavam um ao outro. O que vou expor nessa coluna é apenas e tão somente a minha opinião sobre esse dejavu protagonizado pela Ferrari na etapa alemã.

Vivemos a era dos grandes negócios e das grandes conquistas, quem chega à Fórmula 1 hoje tem que saber como lidar com essas duas vertentes de forma racional e competitiva, mas às vezes faltam ingredientes nesse grande bolo para se fazer a festa.

Temos que ter na cabeça que PILOTO ENTRA NO CARRO PRA VENCER, a palavra DERROTA esta fora dicionário desses valentes cavaleiros desde o inicio, lá no kart, a base do caráter e da técnica que todos levam pro resto da vida.

O fato em si pouco importa, pois desde 1950 o jogo de equipe existe e, caso me provem o contrario, vai sempre existir. Até a poderosa FIA já pensa em oficializar do seu jeito essas manobras e já para o ano que vem.

Felipe não foi o primeiro e não será o último a participar desse jogo, mas quando se fala em brasileiro abrindo caminho pra um gringo a coisa vira catástrofe nacional, todos exigem uma execução em praça pública e o herói vira vilão da largada à chegada, mesmo que faça uma grande largada uma fantástica corrida e varias voltas mais rápidas. Mas só um pode vencer, e a equipe optou por ser o que estava melhor no campeonato. O certo e o errado ficam na cabeça de cada um, pois o que é certo pra Ferrari é errado pras outras, incluindo a torcida de ambos os lados.

Essa conversa de sair da frente dói em nós brasileiros porque são nossos meninos que abrem caminho para os outros, coisa muito diferente da época do Ayrton Senna, que desde o triste episodio do GP do Japão onde ele e Prost se tocaram e o titulo ficou com o Frances, de lá pra cá, de uma forma menos discreta, um piloto sempre teve a preferência da equipe. Senna era sempre mais rápido que seus companheiros de equipe, ele largava invariavelmente na pole e disparava na frente. Restava ao seu coadjuvante não exatamente abrir caminho pra ele passar e tomar a ponta, mas diminuir o ritmo e segurar o maior tempo possível os concorrentes diretos.

Isso também é jogo de equipe, você sacrifica a performance de um para se obter a vantagem de outro. Gerard Berger foi um dos maiores escudeiros da história, cumpriu direitinho as ordens da equipe em 1991, ano do ultimo titulo de Senna e do Brasil. Foi no grande premio do Japão que, o austríaco largou na frente e se mandou. Senna, esportivamente, segurou Mansell atrás de si, impedindo que ele tomasse a ponta e o titulo. Quando o leão rodou, saiu da pista e deixou a conquista pro brasileiro, Senna começou a voar, Berger abriu caminho pra ele passar e dar o show. Na ultima curva, atendendo as ordens da equipe, o Ayrton deixou o Berger passar e ganhar a corrida, como premio pelo grande trabalho o ano todo. Embora o Galvão Bueno já soubesse (lembram-se do EU SABIA! EU SABIA!), Senna na entrevista coletiva disse que só fez aquilo porque a equipe pediu porque ele nunca pensou em perder aquela corrida ou qualquer outra corrida na vida, queria conquistar o tricampeonato com uma grande exibição e com vitória. Não virou vilão, foi considerado magnânimo com o companheiro que tanto o ajudou e pouco brilhou e fez com que o Mozart parasse de se revirar em sua cova rasa pela então falta de oportunidade com o conterrâneo. Eram outros tempos, eram outros pilotos, mas nunca se mudou a forma de encarar o esporte, de jogar o jogo. Correr sozinho num carro não significa estar sozinho na pista nem decidir sozinho o que será feito em favor do TEAM. Todos pensam no grupo, do faxineiro ao diretor-presidente, todos trabalham focados na conquista coletiva, as peças que se movem o fazem com um objetivo determinado: vencer a todo custo.
 Temos que dar crédito a todos os nossos pilotos na Fórmula 1, eles estão entre os 20 melhores do mundo. No caso do Rubinho e do Massa, criam eventos que apóiam o esporte no Brasil, como as 500 milhas de Kart da Granja e o Desafio Internacional das Estrelas e outras categorias importantes como o Racing Festival.

Tudo isso pra não deixar o sonho morrer, tudo isso para um dia chegar lá, tudo por amor à pátria, que hoje anda de chuteiras e tem 5 títulos mundiais. Quem sabe um dia ela passe a andar de sapatilhas e lembre que tem 8 campeonatos conquistados por 3 pilotos?

Podemos sentir muita dor como aconteceu na Áustria em 2002 com o Barrichello abrindo caminho pro Schumacher (Hoje sim! Hoje sim! Hoje não…) ou mesmo na Alemanha em 2010 onde o Felipe foi magnânimo, mas levou um SORRY de bônus, mas isso não tira o mérito de se fazer a coisa certa no momento certo, e ninguém melhor que um piloto pra saber que, realmente, o mundo dá voltas.

Beijos e queijos.

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