Coluna “De carro por aí” – Roberto Nasser

NasserColuna 3713  11.Setembro.2013

Alemanha, Salão, futuro elétrico

O IAA, abreviatura em alemão, salão de automóveis com amplitude international, bi anual, em Frankfurt, e 65ª edição, cruza referências: menor venda de espaços nos últimos anos; maior distribuição de credenciais: no dia da imprensa haviam mais não jornalistas; e, se não deu o tom definitivo, mostrou o caminho, aparentemente mais prático e incontestado, a ser tomado pela indústria automotiva nos próximos anos: tração elétrica por conjugação híbrida, ou exclusiva e do tipo Plug In – reabastecimento na parede.
Presença contida de expositores está no fato de a indústria de automóveis na Europa vir em retração de vendas, ainda consequente à crise do Sub Prime e pela irresponsável falta de controle pelo governo estadunidense sobre o sistema de hipotecas e financiamentos. Os EUA começaram a se recuperar, mas a Europa, exceto as poderosas alemãs Audi, BMW, Mercedes, mostra queda de vendas incluindo a GM Opel, redução de mercado, porte, fechamento de fábricas. Martin Winterkorn, CEO da VW, disse, atrevidamente, que a Europa pode fechar 10 fábricas de automóveis, pela redução de vendas em 3,5M desde 2007.
Esta condição talvez explique os espaços aparentemente maiores que as necessidades dos expositores e sua mistura – Mitsubushi e Jaguar cercados de empresas de auto peças, por exemplo. De chineses, apenas a Changan. Área, limpa, hígida, meros quatro veículos, instigando críticas, em especial o C 5, de maior expressão. Todos safadas cópias de outros. Dito C5 do Range Rover Evoque. E C 5 é veículo Citroën.
No definir-se pelos elétricos, a Volkswagen bancou larga aplicação, desde os híbridos – anuncia produzirá o recordista XL1, mais de 100 km com um litro de diesel – até os puramente elétricos com vocação urbana, como um furgãozinho sobre o recém apresentado UP!, idem Golf 7.
Para mostrar-se comprometida ao tema, referenciou seu Audi e.Tron, vencedor nas24 Horas de Le Mans, e mostrou sedã Porsche Panamera e SUV Cayenne em versão híbrida.
Não deixa ser curioso a Volkswagen, grupo de 10 marcas perseguindo com solidez a liderança mundial para 2018, invista em desenvolvimento de carros elétricos. À Alemanha falta esta etérea commodity. Sem orografia variada para ter geração hidroelétrica, o faz por usinas atômicas, geradores a petróleo e eólicos. Mas parece momento atrelado ao futuro, e o articulado discurso do CEO Winterkorn fala de compromissos, sobrevivência, mudança de interesse dos jovens a outros bens, e bem define o atual patamar ao dizer que oferecer o carro elétrico não deve ser uma renúncia sobre rodas, mas um caminho atual.

E nós ?

Apesar da distância há novos produtos com previsível reflexo no mercado nacional. Por exemplo, carros elétricos, como o e.Golf e o e.UP!. A Volkswagen te-los-á no Brasil caso aceito pedido da Anfavea, associação dos fabricantes, ao Ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e do Comércio, de isenção de impostos para veículos ou partes de tração elétrica. Casco e chassi rolante prontos, basta importar motor, câmbio e eletrônica e promover o casamento local, criando produto e desenvolvendo tecnologia.
Se este é um bonde mundial, o Brasil, mesmo sem consciência do peso que pode representar, não pode deixar passar, enquanto discute a quadratura do círculo ou o sexo dos anjos.

Foto 1 e.UP! e e.Golf 7

Do grupo VW, aos brasileiros chamou atenções o anúncio de lançamento do Audi A3 Cabriolet, cópia integral da peça de apresentação local do Citroën AirCross.
Produção por tração acadêmica de motor endotérmico, Philipp Schiemer, novo presidente da Mercedes-Benz no Brasil, superou dúvidas e encaminha o fazer da nova família A, anunciada em exclusividade mundial pela Coluna.
Degrau de entrada, abaixo da Série C, tração dianteira, sedã CLA e SUV/Crossover GLA, lançado em Frankfurt. Em entrevista sobre local da nova fábrica, cortou Paraná, focando São Paulo e Santa Catarina. Produção em 2015.
Mercedes GLA. SP ou SC ? 2015.

De produto, Mercedes E 500 Híbrido, apto a uso como carro de representação, em circuitos urbanos, e usufruir de maior autonomia pelo sistema híbrido.

Mais

Especulações não confirmadas sobre a Renault produzir o pequeno SUV Captur – de importação suspensa há dias por elevação dos custos pela valorização do dólar. De certo, mudará a frente do Fluence, dando-lhe cara da marca, dissimulando a origem da coreana Samsung.

Com possibilidades, o Sportsvan, misto de crossover + utilitário esportivo + perua construído pela VW sobre o novo Golf 7, factível para o Brasil, produzindo sua base.

Curioso observar, a ascensão do Brasil no cenário mundial, rentável como produção e consumo, não mudou a imagem do país. Aos envolvidos com a indústria continua sendo Rio de Janeiro, carnaval, futebol, aventura tropical. Executivos da BMW e da Audi, perguntados sobre produção das marcas no país – confirmadas para Santa Catarina e Paraná -, fazem cara de paisagem ante o assunto. De produto, então, de lâmpada fitando a paisagem.

Em paralelo

Nem elétricos, nem produção local, alguns importados trarão reflexos ao mercado interno. Ford, inicialmente, versões chamadas Vignale, no mercado de produtos Premium, tentada pela Lincoln, marca de topo, sem êxito. Invisível linha separa rótulos de Luxo e Premium. Sua área jurídica exumou a marca Vignale, recebida ao comprar a De Tomaso, sua detentora. Agora, aplicará o sobrenome do famoso carrozziere turinês, para versões superiores, como o faz a popular Citroën com seus DS sobre os modelos 3 e 5. O primeiro a ter versão refinada será o Fusion.

Ford-Mondeo-Vignale-1[2]Vignale, Fusion de luxo, em breve

Novos Audi e Peugeot 308, lançados em Frankfurt, este diferente do produzido no Mercosul, mostram crise de identificação. A frente dos Audi, por Walter De Silva com nítida inspiração nos Alfa, para quem desenhou 145, 146, 147, 156 e 166, ficou tão impregnada em proporções e grade alfísticas, que o carro muda mas sugere alguma coisa antiga. Peugeot, caminho inverso. O novo 308 cortou a fórmula anterior, grande tomada de ar frontal e faróis integrados – bocão e olhões às linhas do estilo. Adotou grade horizontal cromada, coquetel de Mercedes, Ssangyong, Hyundai, Infinity … Mudou o frontal, perdeu identidade. O 308 não tem cara Peugeot …

Foto 4
308 europeu. Peugeot sem cara de Peugeot

De fora

Algumas novidades serão importadas, apesar do elitismo dos preços elevados pelos impostos altos. Mas sempre existirão interessados nos novos Mercedes S Coupé, elegante cupezão sobre a comprida plataforma do maior sedã.

Foto 5
Mercedes S Coupé

 

Ou nos Porsche 911/50, edição de formas limpas e autênticas, com tentativa visual do 911 inicial, mítico automóvel a festejar meio século.

Porsche 911 Carrera 4S Coupé und Porsche 911 2.0 Coupé (Baujahr 1964)
Porsche 911/50 inspiração no modelo original ( atrás )

Também, que algum brasileiro, de lastro antigo ou enriquecimento recente se encante com o Porsche 918, considerado pela marca o início do caminho do esportivo híbrido. Somando motores a gasolina e elétrico, gera 887 cv, acelera de 0 a 100 km/h em estupefantes 2,8s, e consome entre 30 e 33 km/litro.

Foto 918

Porsche 918, esportivo híbrido

Audi exibiu veículo a caminho de produção, o Nanuk. Nada a ver com a cidade mineira, mas indicando Urso em esquimó. É esquisito como um urso em Nanuque, quatro por quatro de plataforma Porsche Cayenne/VW Touareg/Audi Q7, vestida por carroceria esportiva descombinando linhas e a elevada altura do solo. Nos anos ’60 as inglesas Jensen – carros, e Ferguson – tratores e tração, criaram o Jensen FF, esportivo com tração total. Dito ironicamente esportivo utilitário, atolou pelo caminho.

Foto 8
Audi Nanuk

Assim,

Considere mais o espírito que os tropeços. O IAA 2013 ficará marcado pelo caminho da eletricidade como factível para o início do re encontro do automóvel com os consumidores e suas demandas pelo respeito ao meio ambiente. Nestes tempos eleitorais pergunte-se porque o Brasil, de imensurável potencial de geração – hidráulica, eólica, mares, carvão, turfa, biomassa -, não se liga nos elétricos como parte da matriz energética. Talvez o tempo de planejamento seja gasto para explicar os inexplicáveis apagões.
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